Banco tem pressa em criar corretora de seguros

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Banrisul tem pressa em criar corretora de seguros

IPO da empresa aproveitaria a valorização do setor bancário

A atual direção do Banrisul tem pressa, muita pressa. A indefinição sobre quando a Assembleia Legislativa (AL) votará o Projeto de Lei nº 208/2015, que cria a corretora de seguros, tem pedido de urgência na tramitação e está desde março na casa, adia ganhos dados como certos. Um efeito imediato da subsidiária será pagar menos tributos, pela diferença de alíquota da corretagem que não é equiparada a de banco, elevando a eficiência no retorno do segmento, que cresce a um ritmo de 40% ao ano no fluxo de receitas líquidas da instituição. Além do efeito financeiro, a operação ao lado da criação de outra empresa – a Banrisul Administradora e Processadora de Ca rtões (também com projeto na AL) – serviria para reforçar a munição do banco num mercado cada vez mais concentrado.

“O resultado do banco nos próximos anos passa muito pelo crescimento das duas operações”, assinala o diretor financeiro e de Relações com Investidores (RI) do Banrisul, Ricardo Hingel. Em cartões, a criação da administradora separaria o que é emissão de plásticos da adquirência, que está na Vero, onde a vedete é o Banricompras. O raciocínio segue também a diferença de tributação. Outra janela que poderá se abrir é a possibilidade de oferta inicial de ações (IPO) das novas operações, caso sejam criadas, na bolsa de valores. Neste caso, o olhar se volta ao potencial de multiplicação de valor associado a esse tipo de setor e seguindo outros exempl os da concorrência, como BB Seguridade, recorde na captação de R$ 11,3 bilhões em 2013, e PAR (Caixa Econômica Federal e GP Investments), com R$ 602 milhões.

O lançamento, se tudo der certo, pode ser uma investida para 2016, começando pela corretora de seguros, que está com formatação como área de negócio mais avançada. Neste ano, não teria tempo hábil para cumprir todos os procedimentos, que incluem o próprio arranjo contábil da operação e demonstração do potencial da nova área. “Abrir subsidiária seria um movimento para mostrar o valor que está ali dentro”, observa Rodrigo Maggi Martin, sócio e analista de investimento setorial da Quantitas, que acompanha o desempenho dos bancos, em especial o do Banrisul. Sobre a cotação do negócio no mercado e a chance de captar múltiplos que precificam o valor das operaç&ot ilde;es já listadas (até 20 vezes), Martin indica mais prudência.

O fator que pesa é a leitura de risco, e hoje os investidores estão fazendo uma associação, mesmo que descolada dos resultados recentes do negócio, entre o banco e a situação fiscal do Estado. O advogado especialista em mercado de capitais e sócio da TozziniFreire Rodrigo de Campos Vieira admite que o cenário de IPO também não é favorável, mas lembra que o banco tem bom canal de distribuição e base de clientes. “Esses ativos valem dinheiro, pode ser chance para fazer caixa”, opina Vieira.

Hingel, que formatou e liderou o processo da emissão de ações em agosto de 2007, num momento em que o mercado de IPOs na BM&FBovespa bombava, não se pronuncia sobre eventual lançamento de ações e nem quando. “A abertura de capital pode ser uma decorrência, pois a corretora vale muito”, limitou-se o executivo do banco estadual. Para a vida real da instituição, que passa pelo pior momento de valorização das ações na bolsa desde 2009, a existência da corretora teria reduzido em R$ 10 milhões a conta com tributos em 2014. Neste ano, a projeção é de R$ 15 milhões.

Em cartões, os números não foram estimados. “Cada dia que passa perdemos dinheiro”, adverte o diretor de RI. “Como as instituições têm negócios e estratégias diferentes, criar outras empresas não só permite melhorar a gestão, como sofrer tributação correspondente”, observa a especialista em Direito Tributário e Planejamento Patrimonial Ana Claudia Utumi, sócia do escritório Tozzini Freire. A corretagem de seguros tem tributação de 34% (IRPJ e Contribuição sobre o Lucro Líquido), enquanto bancos, 40%. Ana salienta que a vantagem tributária exige autonomia das operações.

Ações do Banrisul caem para o pior valor em seis anos

A desvalorização da principal ação do Banrisul na BM&FBovespa (a BRSR6) acumula perda de 50,4% no ano. A ação atingiu na sexta-feira o valor de R$ 6,69, menor cotação desde agosto de 2009.

“O preço não reflete o operacional do banco, mas o investidor não quer mais incertezas”, avalia Rodrigo Maggi Martin, sócio e analista de investimentos setorial da Quantitas, que aponta melhora em indicadores como provisões (para cobrir débitos) e mesmo no resultado líquido ajustado no segundo trimestre. Na semana passada, a agência Standard & Poor’s tirou o grau de investimento do País, que distribuiu danos aos papéis, e o Banrisul entrou no pacote, perdendo um ponto mais que os demais.

Martin lembra que as análises de risco, feitas por instituições de mercado, ponderam a situação das finanças estaduais, colocam como face de cautela a relação com a folha de salários, mas o peso de 15% do crédito ligado aos vencimentos, reduz maiores riscos. O fato que mais chamou a atenção – e foi alvo de pedido de esclarecimento na sessão do Banrisul com analistas após a divulgação dos números do segundo trimestre – é o efeito da liminar ainda em vigor, dada pela Justiça Estadual, que impede o banco de cobrar juros e multas por atrasos de servidores em empréstimos diretos com o banco.

“Isso atinge cheque especial, financiamento imobiliário, cartão e seguros”, avisa o defensor público Felipe Kirchner, do núcleo de defesa do consumidor e de tutelas coletivas, autor da ação. “O Estado que deu causa à inadimplência é o principal acionista do banco”, justifica Kirchner.

CQCS

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