Contas de poupança com sorteios x Capitalização

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“Não existiria som, se não houvesse o silêncio! Não haveria luz, se não fosse a escuridão.” (Certas coisas, Lulu Santos)

Nem tudo o que é bom ou ruim para alguns, tem o mesmo efeito para outros. E nem todas as percepções são iguais. Registro isso como premissas para que leitores de diferentes perfis possam melhor entender como algo óbvio para alguns, fica confuso para outros, e vice-versa. Como diz o ditado popular, “cada macaco no seu galho”.

E é por isso que coexistem tantas alternativas no sistema financeiro, porque encontram simpatizantes, clientes, pessoas que fazem escolhas conscientes, ainda que destoem de um consciente coletivo que, por sua vez, pode destoar da percepção de outros grupamentos sociais.

Quando foi alterada a regra de remuneração da poupança, em maio de 2012, reduzindo sua competitividade diante de alternativas, muitos achavam que seria um balde de água fria no mais popular instrumento de poupança e investimento do mercado brasileiro. Não foi. Três anos depois, os bancos passaram a oferecer premiações, por meio de sorteios, para alavancar os depósitos. Não surtiu o efeito desejado. Até pelo contrário, os saldos vêm caindo acentuadamente, claro que por outros motivos, como as taxas de juros e o endividamento elevados, mas o certo é que os atrativos da poupança são outros.

Em finanças pessoais, especialmente na parte de investimentos e de formação de reservas, o grande risco, e o que mais prejudica a população, é o chamado efeito manada, aquele que faz com que uma grande maioria, especialmente os menos experientes, tomem decisões baseadas nas decisões dos outros, abandonem seus planos, esqueçam suas escolhas e troquem de posição. E isso geralmente não ocorre com bases racionais. Os apelos emocionais falam mais forte. Na hora da decisão e muitas vezes também na hora do arrependimento.

Falando de maneira mais simples, quem escolheu, por exemplo, juntar dinheiro por meio de títulos de capitalização porque se identificou ou encontrou nessa alternativa um fator de motivação para poupar, ou porque queria alimentar o sonho de ser contemplado em algum sorteio, pode permanecer fiel à sua escolha, ainda que as contas de poupança agora também estejam oferecendo prêmios. As características básicas de um e outro produto continuam as mesmas, as vantagens e desvantagens também:

Capitalização: sugerida para quem é pouco perseverante e pouco disciplinado no ato de poupar, pois o instrumento ajuda a compensar essas características; para quem gosta de contar com as regras do produto para criar reservas; escolhida por quem não precisa de liquidez no curto prazo e por quem tem sonhos que não cabem no orçamento. Indicada, ainda, para quem prefere substituir um fiador, no caso de locação de imóveis.

Poupança: boa para quem precisa de liquidez e segurança. Serve como ponto de partida para outros investimentos e como reserva para emergências ou oportunidades.

Nenhuma dessas alternativas tem em seus atributos a rentabilidade como referência. Então, como justificar que milhões de brasileiros prefiram capitalização e poupança a outras modalidades, mesmo em momento de alta nas taxas de juros? Simples. Porque possuem diferentes motivações e percepções daquelas captadas pela maioria dos especialistas em finanças, muitas vezes críticos desses produtos.

Se fosse pelo anseio de maiores rentabilidades, poupança e capitalização nunca foram e jamais serão as melhores alternativas. Se for pelo conjunto de simplicidade, segurança e liquidez, nada bate a poupança. Mas se a motivação for a busca por um instrumento auxiliar na disciplina de guardar dinheiro ou se o estímulo para poupar for a crença na possibilidade de realizar sonhos por meio de sorteios, os títulos de capitalização continuarão cumprindo seu papel e vão continuar crescendo, em volume e em quantidade de clientes. Para alguns é a primeira alternativa. Para outros, uma alternativa de diversificação.

Naquela mesma canção, Lulu Santos diz que “há certas coisas que eu não sei dizer… E digo.”

É por isso que há certas coisas que precisamos aceitar: poupança e capitalização são produtos de grande alcance popular. Serão sempre. Ponto! Ainda que certas comparações não lhes sejam favoráveis, ambas são muito populares e quem as tem demonstra satisfação. Enquanto isso, pessoas que investem em produtos mais rentáveis, demonstram insatisfação maior com os resultados, com a volatilidade, com os riscos. Caímos em mais uma dúvida cruel: é melhor ser mais feliz com menos dinheiro ou ter mais dinheiro e menos satisfação?

CQCS

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