Proibir redes sociais a filhos não é caminho, mas é importante impor regras

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O contato das crianças com a internet tem sido cada vez mais precoce, segundo a pesquisa Kids Online Brasil, desenvolvida pela Cetic (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação da Unesco). Em 2013, 44% dos pequenos com acesso à rede ingressaram nesse universo com menos de 10 anos. Ao todo, 14% deles tiveram a primeira conexão com até seis anos de idade. O número é quase o dobro do registrado em 2012, que era de 8%.

Pesquisa revela que crianças têm acesso à internet cada vez mais cedo

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“Quanto maior a classe social da criança, mais cedo ela tem acesso à rede. Os brasileirinhos das regiões Sul e Sudeste também acabam se favorecendo e tendo mais acesso à tecnologia”, relata Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br. Segundo ele, um dos principais interesses dos pequenos na internet é a rede social. A pesquisa revela que 79% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos possuem perfil em redes sociais. Um crescimento de 9 pontos percentuais em relação a 2012.

Mas será que existe a idade certa para ter acesso à internet e, consequentemente, às redes sociais? “Essa é a questão que todos os pais me perguntam, mas é o mesmo que perguntar: qual a idade certa para deixar um filho brincar na casa de um amigo?”, afirma Diana Laloni, professora da faculdade de psicologia da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas).

Ela explica que muitas famílias adotam parâmetros em razão de cultura e crenças, mas impor idade “é arbitrário”. “Alguns com 18 anos não têm condições de dirigir, mas outros com 16 já teriam essa capacidade. Essas idades padrões são quase aleatórias”, exemplifica.

A maioria das redes sociais, no entanto, recomenda o acesso a maiores de 13 anos, como aponta Eric Messa, coordenador-geral do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado). “Conduta adotada apenas como prevenção a possíveis processos, mas que é facilmente burlada”, afirma o professor.

Para Juliana Cunha, coordenadora do canal de ajuda da Safer Net –ONG brasileira que promove e defende os direitos humanos na internet–, tudo depende da maturidade da criança. “Os pais precisam identificar se os filhos são ou não capazes de perceber os riscos do mundo digital, que são similares aos do mundo real”, conta ela. “Essa capacidade, no entanto, não vai aparecer sozinha. É preciso ensiná-lo como se comportar na rede, assim como se ensina a atravessar uma rua”, acrescenta.

Estabelecer regras e educar para a vida online
Uma rede social, como define Cunha, é uma grande praça pública com a possibilidade de milhares de contatos, inclusive com pessoas mal-intencionadas. “Além do risco desse tipo de contato, há maior exposição a conteúdos impróprios.” Segundo ela, a educação digital tem sido tão importante como as regras de convivência no mundo real. “Assim como é importante continuar recomendando aos filhos a não falar com estranhos e a não aceitar doces de estranhos, é primordial falar que ele não pode se expor na internet.”

A pesquisa Kids Online Brasil 2013 aponta que 42% dos usuários de internet entre 11 e 17 anos declararam não saber mudar as configurações de privacidade em perfis de redes sociais. E mais: 38% deles afirmaram ter adicionado pessoas que nunca conheceram pessoalmente.

Mas, segundo Diana Laloni, da PUC-Campinas, o risco da conexão está muito mais ligado à falta de educação e de treinamento das crianças. “Proibir não é saída, até porque com a disseminação da internet é facilmente possível que seu filho encontre maneiras de se conectar mesmo sem sua permissão. E é muito pior que ele faça isso sem a devida supervisão”, aconselha a psicóloga. Ela se diz contra a proibição, assim como os demais especialistas em segurança digital entrevistados pelo UOL, mas ressalta a importância da imposição de regras.

“Regras e rotina fazem parte da educação. É importante estabelecer horário de brincar, de estudar e de comer, assim como se faz necessário determinar o horário do acesso à rede”, explica a professora, que não recomenda que esse tempo seja próximo ao horário de dormir. “Esse período precisa ser dedicado a atividades que acalmem a criança. A luz do computador é excitante e tende a prejudicar o sono.”

É importante ainda, de acordo com Cunha, que os pais monitorem constantemente o acesso dos filhos. “Cada um estabelece sua própria estratégia. Alguns liberam o seu próprio perfil para que o filho tenha acesso aos jogos de interesse. Outros ficam ao lado da criança enquanto ela navega pela rede”, afirma, que diz não ser recomendado bisbilhotar escondido o perfil do filho. “Se ele descobrir, isso pode significar quebra de confiança. Qualquer controle deve ser estabelecido em um acordo. O melhor caminho é estabelecer regras como só adicionar pessoas conhecidas”, completa.

A coordenadora do canal de ajuda da Safer Net recomenda que os pais fiquem atentos ao tipo de informações pessoais que as crianças estão divulgando e quais as fotos que estão postando. “Lembre-se que algumas imagens –apesar de parecerem inofensivas– fora do contexto podem ter uma conotação não muito adequada”, diz. Também não é recomendado o uso da ferramenta de geolocalização. “Alerte seus filhos sobre os riscos, não diga apenas o que fazer ou deixar de fazer.”

Um bom caminho para o monitoramento do acesso é o diálogo, diz Laloni: “Assim como você deve perguntar diariamente o que ele fez na escola, com quem brincou e como foi o dia, deve perguntar sobre suas interações nas redes sociais: com quem ele tem conversado, que jogo tem usado”. Segundo ela, com esse tipo de conversa, será possível obter informações sobre possíveis irregularidades no uso da rede.

Vale ainda estar atento a qualquer mudança abrupta de comportamento dos filhos. “Esse pode ser um sinal do ciberbullying”, afirma Juliana Cunha.

O grande problema no país, de acordo com Barbosa, é que a maioria dos pais das crianças conectadas nem mesmo conhecem os possíveis riscos do mundo digital. O estudo Kids Online Brasil 2013 aponta que 51% dos pais das crianças de 9 a 17 anos que têm acesso à rede não são usuários. “Esse índice é impulsionado basicamente pelas classes sociais mais baixas. Enquanto que 81% dos pais das crianças das classes A e B têm acesso a rede, o percentual na classe C cai para 47% e, na classe D e E, para 18%”, relatou o gerente do Cetic.br.

UOL

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