Quando você é o terceiro

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Você tem de apelar para uma oficina credenciada pela seguradora do causador do acidente? Muita calma nessa hora

Regina Cunha se deu mal ao consertar seu Classic numa oficina credenciada

Regina Cunha se deu mal ao consertar seu Classic numa oficina credenciada

Aconteceu o pior. Não foi culpa sua, mas o carro está amassado. A notícia boa é que o seguro do outro motorista cobre os prejuízos.

A notícia não tão boa é que os reparos só poderão ser feitos em uma das oficinas credenciadas pela seguradora, e nenhuma delas é sua conhecida. Como garantir a qualidade do serviço?

Janito Ferreira, professor de engenharia mecânica da Universidade de Campinas (Unicamp), diz que, em geral, a oficina credenciada pode provocar surpresas desagradáveis. Essas oficinas costumam cobrar menos das seguradoras para ter certeza de que vão entrar na lista de credenciadas. O problema é que, para garantir as margens de lucro, elas vão fazer muita força para cortar custos, sacrificando a qualidade dos serviços. “Elas podem reparar as peças danificadas em vez de trocá-las, ou mesmo colocar peças usadas ou do mercado paralelo”, diz Ferreira.

Foi mais ou menos o que ocorreu com a analista de sistemas Regina Cunha. Em 2006, um motorista desavisado estragou a traseira de seu Corsa Classic novinho. O causador do acidente tinha uma apólice da Real Seguros, e se prontificou a pagar os prejuízos, que chegaram a 12 000 reais nos dois veículos. Aí começaram os problemas de Regina. O carro era novo, e ela queria consertá-lo em uma concessionária. Pedido negado, apesar da intervenção do próprio segurado. Em seguida, ela tentou fazer o serviço em uma oficina que conhecia. Novamente, nada feito. “A seguradora me deu uma lista de três oficinas na região em que eu morava”, diz ela. “Eu não conhecia nenhuma, por isso visitei as três e escolhi a que me pareceu mais organizada.” Serviço feito, automóvel entregue, dor de cabeça na área. “A porta traseira estava desalinhada e a pintura interna do porta-malas começou a descascar e enferrujar depois de dois meses”, afirma Regina. “A oficina não trocou as peças, só desamassou, soldou e pintou.” A solução foi vender o carro, com prejuízo, poucos meses depois. Procurada, a seguradora Tokio Marine, que assumiu a Real Seguros, não quis comentar o caso.

Segundo Marcos Carvalho, analista técnico do Cesvi (Centro de Experimentação e Segurança Viária), que trabalha em parceria com as seguradoras, às vezes você consegue convencer a companhia a reparar seu carro pela sua oficina preferida. “Precisa bater pé até eles cederem”, diz. Mas Carvalho reconhece que nem sempre isso adianta. E, se você estiver na situação de Regina e for obrigado a usar uma oficina desconhecida indicada pela seguradora, os especialistas dão algumas sugestões para reduzir os problemas. Segundo Ferreira, da Unicamp, o cliente deve antes de tudo entrar em contato com a oficina para analisar o atendimento e ter certeza de que todas as suas perguntas foram respondidas. “É bom perguntar como as avarias serão consertadas e prestar atenção na limpeza e na organização da oficina.”

Um ponto importante é a capacitação dos funcionários.

Se o certificado mais recente emoldurado na parede tratar da especialização nos consertos de carros muito antigos, desconfie. Procure por certificados da ASE (Automotive Service Excellence) Brasil, ligada à indústria automotiva e que promove testes periódicos para os profissionais da área, e do Cesvi, que criou uma placa de qualificação técnica para as boas oficinas do ramo. Outra recomendação importante é observar os carros que estão sendo reparados. Oficinas maiores, que oferecem vários serviços e que reparam automóveis de alto padrão e importados, tendem a ser escolhas melhores.

Em geral, as seguradoras garantem aos clientes que o serviço prestado pelas oficinas credenciadas é de boa qualidade. Para isso, as seguradoras procuram caprichar na hora da escolha. “Consideramos fatores como a apresentação da oficina, a qualidade dos serviços e dos equipamentos e a capacitação e atualização dos profissionais”, diz Marcelo Sebastião, diretor da Porto Seguro.

Ser atendido pela rede credenciada não significa apenas problemas. Se ficar insatisfeito, você sempre pode reclamar com a seguradora, que é a responsável pelo serviço. A reclamação tem de ser formal, por meio de e-mail, dirigida ao departamento de atendimento aos clientes ou à ouvidoria, se houver. “Avaliamos a reclamação e, dependendo do ocorrido, a oficina pode perder o credenciamento”, diz Sebastião. Para as oficinas, ser credenciado em uma seguradora é um excelente negócio, pois garante fluxo constante de serviço. “Se o cliente reclama, eu faço tudo para resolver o problema rapidamente”, afirma José Pereira, proprietário da Auto Mecânica Azpesi, oficina de São Paulo credenciada em mais de cinco seguradoras.

Mesmo assim, especialistas como Ferreira preferem utilizar unicamente oficinas de sua confiança. “Só assim tenho certeza de que o orçamento de peças e serviços terá apenas itens necessários e o preço será justo”, diz ele.

FIQUE DE OLHO
Equipamentos e técnicas que merecem sua atenção na oficina

Solda de oxigênio-acetileno: é do tipo antigo, que usa uma ama forte, o que favorece o surgimento da corrosão. O correto é ter solda a ponto ou Mig. Para reconhecê-la, é só ver a mancha que fica na lataria. Se for grande como uma mão aberta, é acetileno. Se for um pequeno ponto, pode confiar.

Uso de jornal: eles ainda embrulham as peças com jornal? Mau sinal, pois acaba grudando na lata e afetando a qualidade do serviço. O correto é utilizar papel pardo ou plástico.

Lixa a água: se houver poças de água na área de lixamento, caia fora. O correto é lixar a seco, pois o serviço é mais rápido e o risco de corrosão e bolhas na pintura, menor.

Estufa: é uma cabine forrada de lâmpadas que acelera o processo de secagem e ainda reduz o risco de depósitos de poeira sobre a pintura.
Se a oficina tiver, é ótimo sinal.

Cabine de pintura: é uma sala fechada onde o veículo é pintado sem o contato com a poeira que há na área de funilaria. A cabine é um investimento caro e nem todas as oficinas têm, mas a qualidade do trabalho é bem superior.

Fonte: quatrorodas.abril.com.br

 

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