Tecnologia de vestir começa a se entranhar no ambiente de trabalho

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“Fisicamente foi como tomar uma vacina; uma dor na mão que passou muito rapidamente”, explica Hannes Sjoblad, descrevendo o momento em que um especialista em piercings implantou um microchip sob sua pele.

O chip NFC (sigla em inglês para “comunicação por campo de proximidade”) permite que o sueco entre em seu escritório, ative o sistema de alarme, registre pontos de fidelidade em lojas próximas e tenha acesso à academia de ginástica.

A gigante petrolífera BP distribuiu mais de 24.500 monitores de atividade Fitbit para os funcionários de sua unidade norte-americana apenas em 2015

A gigante petrolífera BP distribuiu mais de 24.500 monitores de atividade Fitbit para os funcionários de sua unidade norte-americana apenas em 2015

Cerca de 15 a 20% das 250 pessoas que trabalham no espaço de cooperação Epicenter, em Estocolmo, onde Sjoblad é “chefe de revolução”, optaram por entrar no programa, que elimina a necessidade de chaves com sensor magnético ou cartões eletrônicos de entrada. Depois que anunciou o programa, no início deste ano, Sjoblad recebeu uma enxurrada de perguntas de empresas que desejam adotar um sistema semelhante. “Empresas de segurança, operadoras de escritórios, companhias imobiliárias e até mesmo organizações militares querem ver como essa tecnologia funciona”, diz Sjoblad.

Tudo isso faz parte de uma tendência ao uso de tecnologias –normalmente aparelhos de vestir, como óculos e relógios inteligentes, pulseiras e crachás, em vez de itens implantáveis– para monitorar os movimentos do funcionário e melhor a produtividade. A promessa de eficiência impulsionada pela coleta de informações pode ser atraente para os gestores de empresas, mas tem um custo: o direito do funcionário à privacidade.

“Essa tendência começou com discussões a respeito de big data, no tocante à coleta de insights de negócios e ao fato de não contabilizarmos o ser humano nesse quebra-cabeças de dados. A tecnologia de vestir pode ajudar a dar visibilidade à mão de obra nesse contexto”, diz Chris Bauer, diretor de inovação da Goldsmiths, University of London.

Os aparelhos, contudo, precisam ser combinados com um poderoso sistema de retaguarda.

“Os aparelhos de vestir não têm uma utilidade em si”, acrescenta o chefe de relações com o desenvolvedor para Europa, Oriente Médio e África da Salesforce, Guillaume Roques. “Eles precisam fazer parte de um movimento em direção a um sistema de inteligência que combine big data, computação na nuvem e análises. Conectar tudo isso é um grande desafio”.

Saúde e bem-estar

Uma das principais tendências é de que as empresas utilizem os aparelhos de vestir para monitorar a saúde dos funcionários –fornecendo à equipe monitores de aptidão física para formular tabelas sobre seus níveis de atividade como parte dos programas de “bem-estar”. Estas informações podem ser ligadas aos prêmios de seguro dos planos de saúde ou a outros programas de incentivo para redução dos custos com saúde.

A gigante petrolífera BP, por exemplo, distribuiu mais de 24.500 monitores de atividade Fitbit para os funcionários de sua unidade norte-americana apenas em 2015 usando um programa de incentivo desse tipo.

“Esses programas estão muitas vezes ligados fortemente a empresas que negociam tarifas mais baixas para as políticas de seguro coletivo. As seguradoras confiam mais nesses aparelhos do que nos relatórios apresentados pelos funcionários”, explica Bauer.

Segundo a Gartner, cerca de 2.000 empresas de todo o mundo ofereceram os monitores de atividade a suas equipes em 2013, total que subiu para 10 mil em 2014. A firma prevê que até 2016 a maioria das empresas com mais de 500 funcionários oferecerá monitores de saúde.

Inconvenientes

Embora a tecnologia de vestir possa proporcionar enormes benefícios, ela também traz desafios, particularmente em um momento em que os aparelhos começam a coletar cada vez mais informações pessoais e biométricas. Os aparelhos produzidos para o consumidor final nem sempre têm uma criptografia rigorosa e outras proteções para as informações pessoais, o que pode deixar as empresas expostas a vazamentos ou roubos de dados.

Existe também o risco de criar inadvertidamente um ambiente de trabalho opressivo e minar o moral da equipe.

A consultoria de informações científicas Profusion, com sede no Reino Unido, descobriu isso da pior maneira. A firma realizou um estudo para verificar quais informações os empregadores poderiam coletar dos aparelhos de vestir 24 horas por dia, buscando melhorar o bem-estar de seus funcionários. A pesquisa envolveu o monitoramento de 171 métricas diferentes, incluindo batimento cardíaco, níveis de atividade, localização e outras informações coletadas de aplicativos de smartphone.

“Um dos participantes achou que a ideia de ter seu ritmo cardíaco verificado continuamente o deixava nervoso”, diz o CEO da Profusion, Mike Weston. Outra temia que seu chefe direto estivesse monitorando os níveis de estresse informados por ela. “Ela se sentia desconfortável por estar sob o microscópio”.

UOL

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